Linha fina: Testamos “Entrenched”, a missão de campanha disponível no beta de Modern Warfare 4. O espetáculo continua impecável; a surpresa, nem tanto.
Call of Duty: Modern Warfare 4 sabe fazer uma guerra parecer cinema. Em “Entrenched”, a missão de campanha liberada no beta, a neve se mistura à fumaça, a artilharia abre crateras diante do pelotão e cada disparo tem peso suficiente para manter o jogador grudado na tela. É tecnicamente impressionante, tem ritmo e entende como poucos jogos a força de um grande espetáculo militar.
O problema é que também parece familiar demais.
Depois de pouco mais de 30 minutos avançando por trincheiras, acompanhando um blindado e escapando de uma usina nuclear em colapso, minha sensação foi contraditória: eu gostei do que joguei, quero conhecer o restante da campanha e, ao mesmo tempo, quase nada do que vi me surpreendeu. Modern Warfare 4 impressiona pelos mesmos motivos que Call of Duty impressiona há quase duas décadas.
Transparência: estas impressões foram produzidas a partir da versão de PC do beta e de uma única missão de campanha. Não são uma análise do jogo completo. A build exibe a marca “BETA” e pode mudar até o lançamento.
Modern Warfare 4 impressiona pelos mesmos motivos que Call of Duty impressiona há quase duas décadas.
O que havia no beta
“Entrenched” é uma missão completa da campanha e representa uma estreia para a franquia: segundo a própria Activision, esta foi a primeira vez que um beta de Call of Duty recebeu uma fase de campanha. O objetivo é avançar com infantaria e veículos aliados para impedir que uma usina nuclear estratégica caia nas mãos do inimigo.
A campanha acompanha o soldado Park, um jovem militar sul-coreano lançado no combate quando a Coreia do Norte inicia uma invasão em larga escala. O conflito também se conecta ao arco de Captain Price e continua os acontecimentos de Modern Warfare III, de 2023.
Ficha rápida
- Missão testada: Entrenched
- Conteúdo: campanha single-player, com cerca de 30 minutos nesta primeira partida
- Desenvolvimento principal: Infinity Ward
- Lançamento: 23 de outubro de 2026
- Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2
- Acesso antecipado à campanha completa: 16 de outubro para compras digitais elegíveis
Quando Modern Warfare 4 será lançado?
O jogo completo chega em 23 de outubro de 2026 para PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2. Quem comprar uma edição digital elegível terá acesso antecipado à campanha a partir de 16 de outubro.
Ficha do jogo e ofertas
Na checagem realizada em 26 de agosto, ainda não havia uma oferta com preço verificado. A página do produto reúne a ficha técnica e será atualizada quando aparecerem promoções confirmadas.
Assista ao trailer oficial
Entrenched sabe impressionar
O começo já estabelece o tom. Soldados se protegem atrás de uma barreira enquanto caças passam sobre a floresta e o bombardeio transforma neve, terra e fumaça em uma massa só. Segundos depois, o pelotão corre morro abaixo. É um daqueles momentos em que Call of Duty usa movimento, áudio e escala para empurrar o jogador sem precisar colocar uma seta gigante no centro da tela.

A missão “Entrenched” coloca o jogador em um ataque de grande escala na Coreia do Sul. Imagem: captura própria/PixelNerd.

A abertura alterna encenação cinematográfica e controle sem uma quebra evidente. GIF: captura própria/PixelNerd.
A construção audiovisual é o ponto mais forte da fase. Há disparos ecoando ao longe, explosões que encobrem momentaneamente a visão, árvores queimadas, partículas no ar e companheiros ocupando diferentes planos da imagem. A impressão não vem apenas da resolução ou da qualidade das texturas. Ela nasce de uma cena cuidadosamente dirigida.
As armas também ajudam. Espingardas têm uma resposta seca e agressiva, a recarga é legível mesmo no meio do caos e as animações de mira preservam a sensação de peso sem tornar os comandos lentos. O jogo ainda inclui mutilações e quedas bem conectadas aos impactos. Nada disso reinventa o gênero, mas quase tudo é executado com enorme competência.

O lançamento de granada, o avanço e a retomada dos disparos acontecem sem interromper o fluxo do combate. GIF: captura própria/PixelNerd.

Fumaça, partículas e iluminação mantêm a leitura visual mesmo durante os confrontos mais carregados. Imagem: captura própria/PixelNerd.
O problema é conhecer demais essa coreografia
Call of Duty construiu uma gramática própria para suas campanhas: avance com o esquadrão, sobreviva a uma troca de tiros, espere o companheiro abrir a passagem, invada o próximo espaço, assista a uma ação roteirizada e corra quando tudo começar a desmoronar. “Entrenched” usa essa sequência muito bem. Só que usa uma sequência que a série repete há anos.
A comparação mais direta está em Call of Duty 4: Modern Warfare, de 2007. O nome correto do clássico, vale lembrar, traz o número 4 antes de “Modern Warfare”; ele não se chama “Modern Warfare 4”. Na segunda missão, “Crew Expendable”, o esquadrão invade um navio cargueiro durante uma tempestade, recupera o material procurado e precisa escapar quando a embarcação começa a afundar.
“Entrenched” não copia a história daquela fase. O cenário, os personagens e o objetivo são outros. O que retorna é o ritmo: invasão em equipe, ambiente entrando em colapso, fuga guiada por companheiros e extração no último instante. Em 2007, essa combinação parecia uma demonstração de futuro. Em 2026, ela continua funcionando, mas já não carrega a mesma descoberta.
Em 2007, essa coreografia parecia uma demonstração de futuro. Em 2026, ela ainda funciona, mas já não carrega a mesma descoberta.

O assalto com blindado aumenta a escala sem abandonar a progressão fortemente guiada. GIF: captura própria/PixelNerd.
Há uma ironia histórica nessa sensação. No post-mortem publicado pela própria equipe de Call of Duty 4, a Infinity Ward contou que o demo single-player daquele jogo foi recebido por parte do público como “mais do mesmo”. O estúdio concluiu que uma única missão não conseguia representar a variedade da campanha completa. A mesma cautela vale aqui: “Entrenched” mostra o núcleo de Modern Warfare 4, não necessariamente todos os riscos que o jogo final pode assumir.
Há novidades, mas elas não mudam a estrutura
Seria injusto dizer que absolutamente nada mudou. O beta apresenta movimentação mais fluida, escalada por estruturas, transições rápidas entre corrida, agachamento e salto, além de um sistema de armas refinado. A reta final dentro da usina usa essas ações para criar uma fuga física, com canos, plataformas e companheiros ajudando uns aos outros.

O confronto na área industrial combina uso de cobertura, troca de alvos e recarga em movimento. GIF: captura própria/PixelNerd.

A fuga do reator explora escalada e animações contextuais em meio ao incêndio. GIF: captura própria/PixelNerd.
São boas adições. Mesmo assim, dentro desta missão, elas funcionam como novas peças encaixadas numa estrutura antiga. O caminho continua estreito, os gatilhos de roteiro continuam evidentes e os momentos grandiosos acontecem quando o jogo decide que devem acontecer. A liberdade maior de movimento ainda não se converte, pelo menos aqui, em liberdade maior de abordagem.
Esse é o centro da crítica. Não quero que Call of Duty abandone o espetáculo, vire uma simulação militar ou destrua o que faz bem. Quero que um orçamento, uma equipe e uma experiência técnica desse tamanho sejam usados também para experimentar: um confronto que possa terminar de formas diferentes, um objetivo que responda melhor ao improviso do jogador ou uma set piece que não dependa mais uma vez de correr por uma estrutura em colapso.
Um recorte bonito demais para ser chamado de análise final
“Entrenched” é uma ótima vitrine de produção. A neve reage à luz e à fumaça, o campo de batalha parece ocupado por um exército e a passagem da área externa para o interior da usina mantém a tensão sem depender de uma tela de carregamento visível. A sequência do reator, tomada por luz vermelha, água e fogo, fecha a demonstração com clareza cinematográfica.

A entrada no complexo troca o azul da neve por silhuetas recortadas pelo incêndio e cria uma transição visual muito mais agressiva. Imagem: captura própria/PixelNerd.
Galeria de capturas da missão Entrenched
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Mas uma missão não revela o alcance da campanha. Não sabemos, a partir deste recorte, quanto espaço haverá para furtividade, decisões táticas, missões abertas ou mudanças reais de ritmo. Também não dá para julgar o arco de Park, Price ou o conflito coreano com base num único capítulo concentrado em ação.
Por isso, a conclusão precisa ser do tamanho do teste: Modern Warfare 4 parece excelente no que Call of Duty já domina. A dúvida é se o jogo completo terá coragem de dominar alguma coisa nova.
Modern Warfare 4 parece excelente no que Call of Duty já domina. A dúvida é se o jogo completo terá coragem de dominar alguma coisa nova.
Vale a pena jogar o beta aberto?
Sim. O segundo fim de semana será aberto a todos entre 28 de agosto, às 14h de Brasília, e 1º de setembro, às 14h de Brasília, sem necessidade de pré-venda. A missão “Entrenched” é curta o bastante para ser testada de uma vez e mostra com precisão a qualidade de produção que a Infinity Ward está buscando.
Entre com a expectativa correta: isto é uma demonstração de campanha, não uma review do jogo final. Se você gosta da fórmula cinematográfica de Call of Duty, provavelmente vai sair satisfeito. Se espera que Modern Warfare 4 rompa com essa fórmula, esta missão ainda não entrega a resposta que você procura.
Veredito provisório
Call of Duty: Modern Warfare 4 é tecnicamente impressionante, gostoso de jogar e dirigido com enorme precisão. “Entrenched” também é conservadora demais para um lançamento que chega quase 19 anos depois do jogo que definiu essa fórmula. O espetáculo continua. A surpresa é que ficou para trás.